Um dos maiores investimentos feitos na área dos transportes públicos nos últimos anos, se não a nível financeiro pelo menos a nível de dimensão e visibilidade, tem sido na área da informação ao público. Comparando com há quinze anos atrás, a quantidade de informação disponível em qualquer paragem de autocarro ou estação de Metropolitano é abstrusamente superior – e ainda bem.
O que parece ter escapado a quem implementou estes projectos foi a questão da manutenção. As redes de transportes não são imutáveis em quase nenhuma dimensão, pelo que toda a informação disponibilizada tem necessariamente de ser actualizada com regularidade – sob pena de o feitiço se voltar contra o feiticeiro e a informação errada disponibilizada penalizar a imagem da empresa.
O problema não é exclusivo das empresas de transportes, note-se. O que por aí mais abunda são sites de organismos sérios e respeitáveis que não são actualizados desde o tempo da Maria Cachucha. Nalguns casos trata-se de informação que é completamente impensável deixar desactualizar – sites com legislação, por exemplo –, noutros temos empresas que nos mandam contactá-las para endereços de e-mail que não existem. Noutros casos ainda o utilizador pode questionar-se se os problemas não são deliberados, como os formulários de contacto no site do Público que aparentemente não dão para contactar ninguém...
Mas voltemos aos transportes. Sugiro ao leitor com espírito crítico que tente orientar-se numa estação de Metropolitano com base nas informações que lá aparecem. Alguns exemplos interessantes: em Alvalade, há indicações de saídas para a Avenida dos Estados Unidos da América; em São Sebastião, num dos extremos do cais junto à saída principal que tem uma galeria para o El Corte Inglés está uma seta a mandar-nos para a outra ponta da estação se quisermos ir para esses armazéns; no Rossio, há o cuidado de fechar todas as noites umas escadas que vão dar exactamente ao mesmo sítio que as que ficam abertas, alegando que o átrio está fechado. Mas o tour de force é mesmo sair da Linha Amarela no Saldanha e tentar chegar à Linha Vermelha seguindo as setas. O leitor descobrirá – como todos os utentes ocasionais da estação descobrem – que rapidamente se entra em ciclo, até que o desespero ganha e o infeliz resolve ir por um corredor não identificado que leva exactamente onde se quer.
Outro exercício interessante, e este agora mais directamente ligado à questão da actualização da informação, é tentar apanhar um autocarro com base na informação afixada nas estações de Metropolitano. Desafio o leitor a verificar que 90% das carreiras indicadas já não existem (muitas nem nunca existiram) e que pelo menos metade das paragens não estão no local assinalado (e em geral nem nunca estiveram). Particularmente curioso é o caso das paragens da Morais Soares, que estão todas erradas nos mapas afixados na estação que serve a rua (Arroios) mas correctas nas duas adjacentes (Alameda e Anjos).
Segundo fontes do Metropolitano, a culpa é da Carris que muda os autocarros e não os avisa. Segue a norma portuguesa de culpar alguém e não resolver o problema; objectivamente, dois dias bastavam para fazer o levantamento do que está correcto e do que está incorrecto e corrigir. A justificação também não explica, incidentalmente, como é que o Metropolitano conseguiu afixar informação que nunca esteve correcta...
Mais difícil de culpar noutros é a indicação dos tempos de espera pelos comboios. Inicialmente publicado em Julho de 2010, o quadro nunca foi alterado – o que é curioso, já que no decurso de 2011 o Metropolitano fez reduções de oferta em todas as linhas. Igualmente curioso é o facto de, segundo o mesmo quadro, só haver frequências a partir das 7h30, quando o serviço se inicia às 6h30; mas aí a razão é provavelmente não assustar, já que é frequente esperar-se um quarto de hora pelo Metropolitano nesse período.
Infelizmente, a reacção típica do português a este tipo de críticas é sempre a mesma: isso não é importante. Claro que era importante quando se fizeram as campanhas a dizer de como a empresa X agora tinha uma informação toda xpto (que nunca ninguém sequer se apercebeu que estava toda errada ou, na melhor das hipóteses, incompleta). Infelizmente, neste país ainda poucos percebem que esse tipo de pormenores é sempre reflexo de outros problemas organizacionais mais profundos – e uma empresa que se desleixa em questões aparentemente insignificantes também acaba sempre por se desleixar nas que não o são.
A outra questão, mas essa os entendidos também desmentem sempre, é o efeito negativo na imagem. Informação errada acaba sempre por funcionar exactamente ao contrário do que é suposto. Já várias vezes desisti de esperar pelo autocarro porque o painel indicava 25 minutos até vir o próximo – para ser ultrapassado um quarteirão depois. E a Carris espantou-se muito a dada altura por não haver quase passageiros no 706 ao fim-de-semana e aparentemente ninguém fez a associação ao facto de terem afixado horários errados em todas as paragens a dizer que a carreira não circulava.
Talvez um dia as pessoas comecem a ganhar consciência da importância destas “pequenas” questões. Talvez um dia deixemos, como povo, de investir mais na culpabilização do que na resolução dos problemas. E talvez nesse dia consigamos começar a perder a triste fama que vamos tendo lá fora e o nosso complexo de inferioridade em relação aos outros países da Europa.


