Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

E já agora informação... correcta?

Um dos maiores investimentos feitos na área dos transportes públicos nos últimos anos, se não a nível financeiro pelo menos a nível de dimensão e visibilidade, tem sido na área da informação ao público. Comparando com há quinze anos atrás, a quantidade de informação disponível em qualquer paragem de autocarro ou estação de Metropolitano é abstrusamente superior – e ainda bem.

O que parece ter escapado a quem implementou estes projectos foi a questão da manutenção. As redes de transportes não são imutáveis em quase nenhuma dimensão, pelo que toda a informação disponibilizada tem necessariamente de ser actualizada com regularidade – sob pena de o feitiço se voltar contra o feiticeiro e a informação errada disponibilizada penalizar a imagem da empresa.

O problema não é exclusivo das empresas de transportes, note-se. O que por aí mais abunda são sites de organismos sérios e respeitáveis que não são actualizados desde o tempo da Maria Cachucha. Nalguns casos trata-se de informação que é completamente impensável deixar desactualizar – sites com legislação, por exemplo –, noutros temos empresas que nos mandam contactá-las para endereços de e-mail que não existem. Noutros casos ainda o utilizador pode questionar-se se os problemas não são deliberados, como os formulários de contacto no site do Público que aparentemente não dão para contactar ninguém...

Mas voltemos aos transportes. Sugiro ao leitor com espírito crítico que tente orientar-se numa estação de Metropolitano com base nas informações que lá aparecem. Alguns exemplos interessantes: em Alvalade, há indicações de saídas para a Avenida dos Estados Unidos da América; em São Sebastião, num dos extremos do cais junto à saída principal que tem uma galeria para o El Corte Inglés está uma seta a mandar-nos para a outra ponta da estação se quisermos ir para esses armazéns; no Rossio, há o cuidado de fechar todas as noites umas escadas que vão dar exactamente ao mesmo sítio que as que ficam abertas, alegando que o átrio está fechado. Mas o tour de force é mesmo sair da Linha Amarela no Saldanha e tentar chegar à Linha Vermelha seguindo as setas. O leitor descobrirá – como todos os utentes ocasionais da estação descobrem – que rapidamente se entra em ciclo, até que o desespero ganha e o infeliz resolve ir por um corredor não identificado que leva exactamente onde se quer.

Outro exercício interessante, e este agora mais directamente ligado à questão da actualização da informação, é tentar apanhar um autocarro com base na informação afixada nas estações de Metropolitano. Desafio o leitor a verificar que 90% das carreiras indicadas já não existem (muitas nem nunca existiram) e que pelo menos metade das paragens não estão no local assinalado (e em geral nem nunca estiveram). Particularmente curioso é o caso das paragens da Morais Soares, que estão todas erradas nos mapas afixados na estação que serve a rua (Arroios) mas correctas nas duas adjacentes (Alameda e Anjos).

Segundo fontes do Metropolitano, a culpa é da Carris que muda os autocarros e não os avisa. Segue a norma portuguesa de culpar alguém e não resolver o problema; objectivamente, dois dias bastavam para fazer o levantamento do que está correcto e do que está incorrecto e corrigir. A justificação também não explica, incidentalmente, como é que o Metropolitano conseguiu afixar informação que nunca esteve correcta...

Mais difícil de culpar noutros é a indicação dos tempos de espera pelos comboios. Inicialmente publicado em Julho de 2010, o quadro nunca foi alterado – o que é curioso, já que no decurso de 2011 o Metropolitano fez reduções de oferta em todas as linhas. Igualmente curioso é o facto de, segundo o mesmo quadro, só haver frequências a partir das 7h30, quando o serviço se inicia às 6h30; mas aí a razão é provavelmente não assustar, já que é frequente esperar-se um quarto de hora pelo Metropolitano nesse período.

Infelizmente, a reacção típica do português a este tipo de críticas é sempre a mesma: isso não é importante. Claro que era importante quando se fizeram as campanhas a dizer de como a empresa X agora tinha uma informação toda xpto (que nunca ninguém sequer se apercebeu que estava toda errada ou, na melhor das hipóteses, incompleta). Infelizmente, neste país ainda poucos percebem que esse tipo de pormenores é sempre reflexo de outros problemas organizacionais mais profundos – e uma empresa que se desleixa em questões aparentemente insignificantes também acaba sempre por se desleixar nas que não o são.

A outra questão, mas essa os entendidos também desmentem sempre, é o efeito negativo na imagem. Informação errada acaba sempre por funcionar exactamente ao contrário do que é suposto. Já várias vezes desisti de esperar pelo autocarro porque o painel indicava 25 minutos até vir o próximo – para ser ultrapassado um quarteirão depois. E a Carris espantou-se muito a dada altura por não haver quase passageiros no 706 ao fim-de-semana e aparentemente ninguém fez a associação ao facto de terem afixado horários errados em todas as paragens a dizer que a carreira não circulava.

Talvez um dia as pessoas comecem a ganhar consciência da importância destas “pequenas” questões. Talvez um dia deixemos, como povo, de investir mais na culpabilização do que na resolução dos problemas. E talvez nesse dia consigamos começar a perder a triste fama que vamos tendo lá fora e o nosso complexo de inferioridade em relação aos outros países da Europa.

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Como vender mal o seu trabalho (III)

Há uns meses atrás veio a público uma notícia que inflamou uma parcela substancial da população lisboeta – e o je incluído. Segundo um comunicado do Metropolitano, a estação Baixa-Chiado ia passar a chamar-se “PT Bluestation” numa acção de propaganda da PT, que ia redecorar a estação e basicamente transformá-la numa loja a troco não se percebia muito bem de quê. Os responsáveis pela iniciativa conseguiram explicar tão bem o seu propósito que eu, pelo menos, fiquei convencido que iria passar a ouvir as senhoras anunciarem nos comboios algo como:

Próxima paragem: PT Bluestation. Há telefones para venda e possibilidades de aderir ao MEO.

Com o passar dos meses, tenho de confessar que mudei radicalmente de opinião. Afinal, a estação não mudou de nome – só passou a ter o símbolo da PT à frente nos mapas e nas tabuletas, o que é relativamente inofensivo. Também não foi redecorada, antes passou a ter umas projecções nas paredes que me permitem andar menos desconhecedor do que se passa pelo mundo (ou dito doutra forma, a estação da Baixa-Chiado é, a seguir ao Facebook, a minha segunda fonte de notícias internacionais). E em contrapartida (o que o Metropolitano se esqueceu de dizer, aparentemente) a estação passou a estar em condições. Desde Dezembro para cá, nunca mais apanhei uma escada rolante parada – quando há vários meses que estavam paradas seis das oito escadas do acesso ao Largo do Chiado. As estalactites e chuveiros que decoravam clandestinamente a estação desapareceram. E parece que até passou a haver dinheiro para lavar os azulejos da parede do cais.

Só falta actualizarem a informação relativamente às paragens de autocarro na zona, que continuam a referir carreiras que não circulam há quase dez anos. Ah, claro, e talvez fosse altura de o Metropolitano despedir os seus responsáveis de marketing, já que claramente conseguiram a dúbia proeza de pôr toda a população de Lisboa contra aquilo que, pelos vistos, até é uma boa ideia.

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Como vender mal o seu trabalho (II)

Há uns anos atrás, quando eu estava a viver na Holanda, um amigo sugeriu que fosse com ele à Feira das Colecções no Mercado da Ribeira, já que lhe tinha parecido que poderia encontrar complementos à minha então não tão vasta colecção de parafernália relacionada com a Carris. Assim, nas férias seguintes lá me organizei para me levantar de madrugada num domingo e fomos os dois à aventura.

Por entre as dezenas de bancas, uma vendia uma planta de Lisboa dos anos cinquenta com as carreiras de autocarros e eléctricos assinaladas. (Hoje tenho umas dez semelhantes, mas esta foi a primeira.) Aproveitei para perguntar ao senhor se tinha mais coisas do estilo, concretamente – o meu interesse prioritário – guias informativos. (Mais uma vez, hoje a minha colecção já inclui bastantes representantes dos anos cinquenta e sessenta, mas na altura o mais antigo que eu tinha era de 1974.) O senhor chamou o filho, que olhou com um ar completamente desinteressado:

— Guias da Carris? Ah, sim, tenho lá disso aos pontapés. Dois ou três caixotes cheios, é só procurar.

Esforcei-me por ignorar o ar enfastidiado do senhor e lá consegui combinar que na semana seguinte ele levaria um dos tais caixotes para eu ver.

No domingo seguinte voltei a madrugar e dirigi-me de novo com o meu amigo (que se na altura houvesse troikas e agências de rating teria necessitado de um plano de resgate maior do que a Grécia depois da despesa em selos que fez por me acompanhar) ao Mercado da Ribeira. Cheguei à dita banca com o coração a 240 pulsações por minuto, depois de uma noite quase em branco perante a perspectiva de triplicar a minha então reduzida colecção de guias da Carris.

— Ah, sim, trouxe estes.

E mostrou-me a espantosa quantidade de dois – sim, dois – guias da Carris. Mais propriamente, um guia e uma planta-roteiro, respectivamente de 1974 e 1979, e que faziam ambos parte da minha colecção desde sempre. (Mais propriamente: a minha colecção começou quando o meu avô me ofereceu um guia antigo que lá tinha por casa, que era precisamente de 1974; a primeira planta-roteiro de 1979 apareceu já não sei de onde, mas também faz parte do espólio desde o início dos anos noventa.)

Escusado será dizer que fiquei fulo, para além de desiludido.

— Ah, dava muito trabalho trazer o caixote todo. Se quiser para a semana trago mais.

Só que na semana seguinte eu já estava na Holanda – e depois dum balde de água fria daqueles fiquem sem vontade de voltar a comprar fosse o que fosse ao senhor.

No passado domingo, voltei à Feira das Colecções no Mercado da Ribeira. Nos quase dez anos que passaram, a feira modificou-se e desdiversificou-se; enquanto há dez anos metade das barracas poderiam ser categorizadas como “tralha diversa”, actualmente metade são de moedas, outra metade de selos, uma terceira metade de postais – e sobra uma única barraca a vender quinquilharia diversa. (E para os mais distraídos, a parte das três metades é intencional.)

No meio da quinquilharia estava um Guia Informativo do Serviço de Comboios do Ano da Graça de 1956. Animado com a descoberta, tentei falar com o senhor da banca – e tive um déjà vu. Depois de uns bons dez minutos a tentar obter atenção enquanto o senhor conversava sobre tretas diversas com gente que não lhe ia comprar nada, lá consegui que me dirigisse a palavra. Quando disse o que queria, a resposta foi:

— Ah, sim, guias da Carris. Tenho disso aos pontapés. Se fizer muita questão e se insistir mesmo muito, posso fazer o especial favor de lhe vender os repetidos.

(Ok, não foi textualmente isto que o senhor disse, mas testemunhas oculares poderão afiançar que foi este o sentido por trás das palavras que foram proferidas.)

A muito custo lá consegui que o senhor condescendesse a receber o meu contacto e a lista dos anos que me interessam para ver o que é que tinha, da infindável colecção de guias editados desde os anos trinta que lá andam por casa. (Alguns devem ser mesmo muito raros, já que a Carris só os começou a editar em 1949.) Deu-me uma morada e disse para passar por lá um dia desta semana, entre as 15h e as 19h, que ele estava lá e os caixotes também. Disse-lhe que na segunda me era impossível, mas que podia passar por lá na terça-feira logo às 15h; ficámos combinados.

Hoje tentei ir lá, embora sem grande convicção. Bati à porta às 15h10 e esperei. Não apareceu ninguém.

Ainda bem que estamos em crise.

Domingo, 4 de Dezembro de 2011

E agora a sério?

Seguindo aquela velha máxima de que o importante é estar contra, mesmo que não se saiba contra o quê, apareceram no Calvário uns enormes cartazes manifestando-se contra as alterações propostas para as carreiras da Carris no Plano Estratégico de Transportes.

Num deles, ficamos a saber que o Bloco de Esquerda de Alcântara e Ajuda é contra a supressão do 202. Fico feliz por saber que o Bloco de Esquerda liga tanto aos transportes públicos que nem acertou no número do autocarro.

No outro, alguém apela à Greve Geral contra as alterações no 742. Curiosamente, as únicas alterações propostas para o 742 são o acrescento de três viagens relativamente ao horário actual. Vamos manifestar-nos contra os transportes públicos?

Talvez seja por isto que os partidos de esquerda já não convencem ninguém.

Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

Essa mania de criticar...

Anda tudo em polvorosa com o último vídeo partilhado no facebook: uma reportagem da Sábado sobre a alegada ignorância dos alunos universitários, que não têm qualquer cultura geral. Toda a gente comenta, toda a gente critica; e poucos são os que olham para além do sensacionalismo e tentam fazer uma análise minimamente séria do valor (ou não) da peça.

Para começar, olhemos para os jornalistas envolvidos na preparação da peça. Contrariamente aos inquiridos, não foram apanhados de surpresa e não tiveram de responder a quente a uma série de perguntas; prepararam-nas (imagina-se) com tempo e em equipa. Ainda assim, espanto dos espantos, uma das alegadas perguntas demonstra ignorância crassa de quem a faz. “Qual é o símbolo químico da água?” Como qualquer químico dirá, a água não tem símbolo químico; tem fórmula química. A diferença entre os dois conceitos é cultura geral. E quem tem telhados de vidro...

Em segundo lugar, há a representatividade da amostra. Supostamente foram entrevistados cem alunos, mas no vídeo aparecem sempre os mesmos cinco ou seis. Ou seja: cinco por cento dos entrevistados são completamente ignorantes. Então e noutras classes sociais será que a percentagem não é muito mais elevada?

Em terceiro lugar, há a questão da escolha das perguntas. O que se entende por cultura geral varia imenso consoante as modas e o grupo social. Eu considero-me uma pessoa com cultura geral média; façam-me uma pergunta de futebol ou de música popular e conseguem fazer o vídeo inteiro só com a minha pessoa. Não sei o nome de metade dos ministros portugueses actuais; e se me perguntarem a quente provavelmente não me lembro de muitas das figuras públicas que por aí andam. É que é completamente diferente perguntar a alguém quem era o presidente português em 1992 ou quem é o Mário Soares.

Em quarto lugar (e esta vai ofender muita gente) o nível dos alunos é reflexo da qualidade dos professores. Deixem-se de tretas. Se fizerem uma reportagem semelhante tendo como base cem professores universitários conseguirão encontrar cinco ou seis igualmente ignorantes. Assim de repente, vêm-me à cabeça o catedrático de Informática que diz que é impossível fazer uma página web que funcione com qualquer browser (e qualquer adolescente sabe que isto não é verdade, logo é cultura geral); meia dúzia de adeptos das formas verbais “hadem” e “hades”, para não falar da centena que usa regularmente “houveram” (e se a língua materna não é cultura geral, então o que é que é?); e tenho dúvidas que o sucesso em perguntas de bandas rock do século XXI fosse além dos 20%.

Fora de brincadeiras, eu dou aulas no Ensino Superior. Conheço bem os alunos e conheço bem os professores. Sim, também já encontrei um aluno que achava que o Ramalho Eanes era o General Sem Medo e que tinha morrido no desastre de avião que vitimou os Mamonas Assassinas. (Não é exagero, é textual.) E tive de parar a aula durante dez minutos porque os outros vinte alunos na sala tiveram de ser reanimados pelo 112. (Essa parte é exagero, mas estavam tão escandalizados como eu com a falta de cultura geral.) Não acho que os alunos actuais tenham menos cultura geral do que os do meu tempo, e já lá vão quinze anos; acho é que quem lê e comenta estas notícias se esquece que nem todas as pessoas eram iguais a si.

Da mesma forma que conheço e respeito os meus colegas e ex-colegas, admiro muitos deles e uso-os como inspiração. Mas também há – e lá entramos na tal proporção dos cinco em cem – pessoas que eu ouço a falar e tenho de arranhar o tampo da mesa para não gritar ou começar a atirar coisas. Há pessoas que fazem perguntas em seminários que fariam um aluno de primeiro ano perder-lhes todo o respeito. E todos nós temos histórias daqueles professores que diziam coisas que nos fazia perguntar-nos como é que eram professores universitários. (E porque é que alguns deles têm emprego e eu não.)

Dizer mal está na moda e a geração a seguir é sempre mais burra que a anterior, pelo menos aos olhos de quem avalia. Criticar os outros é sempre agradável – só que muitos dos que criticam esquecem-se dos telhados de vidro que têm e, nalguns casos, da responsabilidade que têm naquilo que estão a criticar.

Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

Mitologia comparada XII

No final da semana passada, vários foram os órgãos de comunicação social que divulgaram uma pretensa lista de alterações que a Carris pretende implementar a partir de Janeiro. Os títulos – “Carris elimina 22 carreiras” e análogos – eram bastante inequívocos; um publicou mesmo uma notícia com título “As 50 carreiras que vão mudar na Carris”, seguido de uma listagem onde curiosamente figuravam duas carreiras duplicadas (levando por tanto o total a 48).

O Bloco de Esquerda veio já criticar “o fim do serviço nocturno em Lisboa”. O PCP disse que estas medidas equivaliam a decretar um “recolher obrigatório” em Lisboa. O PS pediu esclarecimentos.

E é tudo mentira.

O jornalismo actual caracteriza-se por uma busca incessante de sensacionalismo especulativo sem qualquer preocupação de rigor ou qualidade informativa. A preocupação máxima é contribuir para o descontentamento social e insatisfação pública, sem qualquer preocupação moral ou responsabilidade cívica. Estas notícias são o exemplo de como se exagera desmesuradamente os factos e se cria uma mini-revolução com base em nada.

Vamos então aos factos.

O Governo nomeou um grupo de trabalho independente para estudar a situação dos transportes públicos de Lisboa e Porto e propor medidas de restruturação dos mesmos com o intuito de reduzir custos. O dito grupo de trabalho elaborou um documento inicial – que se bem percebi nem é uma proposta, mas sim uma base de trabalho – que por razões misteriosas veio a público – provavelmente porque alguém quando consultado entendeu que era mais proveitoso divulgá-lo com grande escândalo do que apontar com seriedade o que entendesse serem problemas – e passou imediatamente a “o que vai acontecer”.

O que ninguém se lembrou de dizer – e isto descobri porque entretanto o documento original está na net e qualquer um o pode consultar – é que metade das medidas propostas para a Carris são para entrar em vigor depois do prolongamento da linha de metropolitano ao Aeroporto.

É mentira que o projecto venha da Carris, que aliás já se manifestou contra algumas das medidas propostas, como o aumento das horas de trabalho dos motoristas.

É mentira que o projecto contemple o fim do serviço nocturno em Lisboa: o que está em discussão é o fim da Rede da Madrugada e sua substituição pelo alargamento do horário das carreiras regulares. A segunda parte foi convenientemente esquecida, juntamente com o facto de os motoristas da Rede da Madrugada andarem muitas vezes a passear-se por Lisboa em autocarros vazios.

A situação faz lembrar o que se passou há cinco anos atrás, quando o Diário de Notícias lançou uma campanha completamente desonesta e incompreensível contra a ”Rede 7”, com títulos como “Há bairros que ficam sem transporte” que eram desmentidos pela lista de alterações que o mesmo jornal publicava noutra página.

E também todos se parecem esquecer da quantidade de projectos da Carris (e esses sim, mesmo da Carris) que nunca chegaram a ver a luz do dia. Exemplos? O eléctrico rápido entre Santa Apolónia e Belém (1995); o eléctrico rápido entre Algés e Loures (2004); a supressão da carreira 79 (2006); o prolongamento do 58 à Damaia (2000); a divisão do 27 e do 32 em duas carreiras cada (1992); o encurtamento do 50 ao Campo Grande (1993); o encurtamento do 28 a Belém (1993); e a lista poderia continuar por muitas e longas páginas.

Toda a gente anda muito incomodada com a crise e o papel dos sucessivos Governos que temos tido na sua génese e desenrolar. Toda a gente está muito ofendida com os lucros da banca que nos suga o tutano num aproveitamento ilícito (?) dos empréstimos que aparentemente somos obrigados a fazer (?). Mas até hoje nunca ouvi ninguém questionar os salários milionários de alguns jornalistas da RTP, que chegam a ser o triplo dos de alguns gestores públicos, ou a incompetência e desonestidade total duma classe jornalística que, para mim, é tão ou mais responsável pelo estado das coisas – e principalmente pela nossa percepção do estado das coisas como todos os outros nomeados.

No dia em que tivermos jornalistas sérios o nosso país estará muito melhor.

Como vender mal o seu trabalho (I)

Provavelmente muitos acharão que eu estou novamente a ser picuinhas, mas reflictam um bocado antes de discordar.

O Metro hoje anunciava:

Linha Verde: devido a avaria do comboio, a circulação está sujeita a perturbações. O tempo de espera poderá ser superior ao normal.

Na Linha Verde circula apenas um comboio?!